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11/10/2004 16:19


RÉQUIEM

gosto de fechar os olhos e me distrair com as formas coloridas que
irrompem no quarto sombrio das pálpebras cerradas. me assustam os
pequeninos pares de olhos, dispostos em círculo, que se formam nessa
caverna escura e me observam toda vez que tenho um acesso de
espirros.
há muito não tenho febre, e isso me faz muita falta.
tem certas horas em que escrever torna-se extremamente difícil – na
verdade, uma tortura –, pela sensação de se ter algo a dizer e
ninguém pra te escutar. ou então de não se ter mesmo nada a dizer:
nada que interesse a um bando de gente que não sai do lugar.
brilha a luz do sol e dirrepente me sinto como se andasse numa rua
lotada. tomado por sensações contraditórias: fujo da multidão e ao
mesmo tempo procuro, desesperadamente, reconhecer rostos amigos em
meio ao rush.
amigos de outrora, que o tempo tragou; amigos desconhecidos,
imaginários e futuros.
náugragos, sedentos e desnudos.
me angustia o invencível giro dos moinhos do tempo, cujas águas são
cada vez mais passadas. e as pás, espaçadas, se utilizam do vento
para nos triturar os grãos da existência, produzindo cada vez mais
memória.
que destino ou desatino nos espera??
um espelho quebrado,
vozes em desalinho,
um dólar no bolso ou revólver na mão...
desconexas correntezas
despoesia, silêncio ou certezas??

busco um grito enlouquecido
para enfeitar o claustro escuro
de minha pálpebras lacradas...
algo poderoso e simples
que venha a modificar
o branco dos muros e o breu dos porões;
uma nota longa,
monótona e lúgubre
que nos desafie lógica
e nos faça desconfiar
das aparências
do deus dinheiro
e do egoísmo nosso de cada dia

uma nota interminável
que destrua nossa inércia
e nos traga de volta
o sorriso e o abraço;
que nos arremesse
além dos quintais e fronteiras
recuperando o outro para mim
e o "eu" para os outros
(muitos "eus" para todos!!)
"todumundo" para muitos,
o sol para todos
e o sonho para os loucos

por alguns momentos,
uma noite que seja,
deixemos de lado a razão. essa camisa-de-força do belo, pretexto para
matar, destruir e se deixar morrer. deixemos de lado a sede de sangue
e poder; a luta sem tréguas e limites para vencer e aprisionar o
outro. que tal deixar de lado a tirania do verbo tEr e se permitir um
mergulho no sEr??

abandonar a mesmice
de uma vida linear
permitir a catarse
transcender, respirar

dar à luz cores vivas
até o galo cantar
conhecer gente linda
e nessa dança de shiva
ver o mundo girar

na palma da mão
marcar os compassos
e girar sobre um pé
com o outro no ar

e quando ao primeiro grito
se reunirem outras notas,
que o vento enfim nos acorde
e sejamos transgressores
compondo, risonhamente,
um réquiem aos opressores


andré pinheiro
enviada por profeta do caos






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